Domácias foliares são pequenas estruturas naturais que apresentam
diversas formas, tais como invaginações, cavidades, bolsas (com ou sem pelos),
tufo de pelos etc existentes na superfície inferior das folhas (superfície
abaxial), desde a base do limbo até aproximadamente 2/3 do seu comprimento. As
domácias estão situadas nas junções das nervuras, ou seja, no ângulo menor
entre a nervura central e as nervuras secundárias de certas espécies de
dicotiledôneas (raramente em monocotiledôneas) (Figura 1).
As domácias existem em plantas de várias espécies e mais de 30 famílias
de angiospermas lenhosas em todo o mundo (plantas espermatófitas cujas sementes
são protegidas por uma estrutura denominada fruto), com ocorrência abundante em
florestas tropicais e subtropicais. Essas estruturas foliares podem variar na
quantidade, desenvolvimento e formato de acordo com as condições ambientais.
Em 1864 já haviam sido observados “pequenos animais octópodes
articulados e seus ovos”, ou seja, ácaros, no interior de pequenas cavidades
existentes nos ângulos de união entre a nervura mediana e as secundárias de
cafeeiros, Coffea arábica L., (hoje chamadas domácias). O
termo domácia ou acarodomácia foi usado pela primeira vez em 1887, portanto, há
127 anos, por um pesquisador sueco, após observações de que essas estruturas
serviam de abrigo e morada para ácaros (do grego domatium =
casa pequena).
Embora alguns pesquisadores, a maioria botânicos, considerem que as
domácias foliares são úteis apenas como características morfológicase de
interesse apenas taxonômico, pois não são conhecidas funções fisiológicas para
elas, outros sugerem que essas estruturas abrigam ácaros que promovem
benefícios para as plantas.
Algumas evidências demonstram a existência de mutualismo entre plantas
que apresentam domácias foliares e ácaros, como, por exemplo, (1) a ocorrência
de ácaros dentro das domácias, (2) a presença de domácias aumenta a chance de
serem encontrados ácaros nas plantas e (3) a atividade dos ácaros aumenta as
chances de encontrar plantas com domácias. A observação do aparecimento de
ácaros predadores dentro e ao redor das domácias em inúmeras plantas permite
considerar a possibilidade de existir mutualismo facultativo entre ácaros e
domácias.
As domácias podem, então, representar a forma de mutualismo mais
abundante e antiga e amplamente distribuída entre plantas e artrópodes.
Pesquisas têm mostrado que existem interações entre algumas
características morfológicas das plantas, como tricomas (apêndices da epiderme
presentes em diversos órgãos das plantas, constituindo seu indumento),
pilosidade, domácias etc e inimigos naturais de pragas, que podem influenciar
de algum modo na capacidade desses organismos em reduzir populações de
artrópodes pragas.
Existe, portanto, um amplo mutualismo facultativo entre domácias e
ácaros benéficos (predadores e fungívoros), em que as domácias foliares lhes
servem de abrigo e criatório que, por sua vez, reduzem o número de artrópodes
fitófagos e patógenos que se encontram nas plantas.
Ácaros podem ser observados em domácias de plantas de diversas espécies,
o que sugere que os ácaros encontram ali o seu alimento. Porém, pode não ser a
regra, pois muitas pesquisas rejeitam a hipótese de que exista mutualismo entre
ácaros e domácias, porque estas nem sempre contêm ácaros. Há domácias com
completa ausência de desenvolvimento de ácaros em seu interior e também há
insuficiência de informações sobre associações de ácaro e domácia.
Já foi relatada a presença dos ácaros Tydeus sp.
(Tydeidae), Agistemus sp. (Stigmaeidae), Typhlodromus
haramotoi (Prasad, 1968) (Phytoseiidae), entre outros, em domácias de
folhas de cafeeiro, C. arabica, e Bdella sp.
(Bdellidae) eAmblyseius herbicolus (Chant, 1959) (Phytoseiidae) em Coffea
liberica Bull.
Provavelmente, os ácaros Tydeidae e Iolinidae são os mais encontrados
nas domácias e por esse motivo ácaros dessas famílias são comumente chamados de
ácaros-das-domácias, ácaros que também podem estar servindo de alimento aos
ácaros predadores, mesmo que como alimento alternativo. Os tideídeos são
encontrados em cafeeiros em qualquer época do ano, porém, aparentemente sem
causar nenhum dano.
As domácias também podem abrigar ácaros microbiófagos, ou seja, aqueles
que se alimentam de “micróbios” e assim favorecem as plantas consumindo fungos
fitopatogênicos ou epífitos, resultando na redução da severidade de doenças de
plantas como, por exemplo, o míldio, Plasmopara spp., Phytophthora
infestans(Peronosporaceae) etc.
Alguns ácaros fitófagos podem acarretar sérios problemas para a saúde
das plantas, mas têm numerosos inimigos naturais, especialmente pertencentes à
família Phytoseiidae de ácaros predadores. Um benefício potencial que as
plantas adquirem é o de que os ácaros predadores podem funcionar como seus
“guarda-costas” contra ácaros-praga. Além de ácaros, as domácias foliares
também podem abrigar ocasionalmente pequenos insetos como tripes e ninfas de
percevejos, possivelmente também predadores, e cochonilhas.
Ácaros predadores e também aqueles que se alimentam de material em
decomposição (detritívoros), de fungos (fungívoros) ou de outros micróbios,
representam 90% dos artrópodes encontrados dentro da domácias foliares. Todos
são considerados benéficos para a planta, nenhum é considerado prejudicial, os
primeiros por serem inimigos naturais de ácaros e pequenos insetos, e os
fungívoros por auxiliarem na redução de patógenos e na mobilização de nutrientes
sequestrados por fungos, algas, bactérias leveduras, liquens etc.
As domácias dos cafeeiros servem de abrigo e local de oviposição para o
ácaro predador Iphiseiodes zuluagai Denmark & Muma, 1972
(Phytoseiidae) (Figura 2), um dos ácaros que vêm sendo estudados na manutenção
de ácaros-praga do cafeeiro em equilíbrio. Isso é uma indicação da importância
das domácias como local e fonte de sua sobrevivência, sugerindo uma interação
mutualística planta-predador e certamente para outras espécies de ácaros
predadores também encontrados em cafeeiro.
Resultados de pesquisas mostram que cafeeiros da espécie arábica (C.
arabica) apresentam muitas domácias desenvolvidas e aproximadamente 70%
mais domácias que Robusta e Conillon (Coffea canephora Pierre &
Froehner), onde as domácias são escassas e pouco definidas. Acredita-se que por
isso os cafeeiros arábica apresentam cerca de oito vezes mais ácaros predadores
da espécie I. zuluagai e até aproximadamente 0,7 vez menos
ácaros-praga [Brevipalpus phoenicis (Geijskes, 1939)
(Tenuipalpidae) - (Figura 3) e Oligonychus ilicis(McGregor, 1917)
(Tetranychidae)] do que C. canephora e isso também pode ser
explicado devido ao efeito positivo da domácia sobre a sobrevivência dos
predadores.
As domácias ainda contribuem para a redução, em C. arabica,
do canibalismo existente entre o ácaro predador adulto de I. zuluagai sobre
os jovens de sua própria espécie, um fator igualmente favorável ao aumento da
população do predador.
Tudo indica que o benefício mais óbvio de uma domácia foliar ao ácaro
predador é o de oferecer proteção e abrigo, especialmente como local para
colocar seus ovos e efetuar a mudança de fase (muda) durante o ciclo de seu
desenvolvimento. Diversos estudos têm demonstrado o uso das domácias por
Phytoseiidae preferencialmente para oviposição e muda. Em condições de campo,
mais de 75% de todos os ovos postos por fitoseídeos já foram encontrados dentro
das domácias. Ensaios de laboratório demonstraram que as domácias foliares
protegem os ovos do efeito da baixa umidade, e na presença de domácias um ácaro
predador coloca duas vezes mais ovos que na sua ausência.
Somente a partir da década de 90 é que a resposta dos ácaros à
arquitetura das plantas tem sido considerada, mas é claro que estruturas
porventura existentes na superfície foliar alteram a abundância de ácaros,
influenciam as interações predador-presa e são importantes para o entendimento
do relacionamento entre ácaros plantículas e plantas.
Ácaros encontrados em domácias de folhas de cafeeiro no Brasil
Espécies
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Famílias
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Referências
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-
|
Iolinidae
|
Spongoski et al., 2005
|
Agistemus brasiliensis Matioli,
Ueckermann & Oliveira
|
Stigmaeidae
|
Mineiro et al., 2006
|
Amblyseius aerialis (Muma)
|
Phytoseiidae
|
Mineiro et al., 2006
|
Bdella sp.
|
Bdellidae
|
Mineiro et al., 2006
|
Brevipalpus phoenicis (Geijskes)
|
Tenuipalpidae
|
Mineiro et al., 2006
|
Daidalotarsonemus sp.
|
Tarsonemidae
|
Mineiro, 2006
|
Euseius citrifolius Denmark &
Muma
|
Phytoseiidae
|
Spongoski et al., 2005
Mineiro et al., 2006
|
Euseius concordis (Chant)
|
Phytoseiidae
|
Mineiro et al., 2006
|
Homeopronematus sp.
|
Iolinidae
|
Mineiro et al., 2006
|
Iphiseiodes zuluagai Denmark
& Muma
|
Phytoseiidae
|
Matos et al., 2006
|
Lorrya formosa Cooreman
|
Tydeidae
|
Spongoski et al., 2005
Mineiro et al., 2006
|
Lorrya sp.
|
Tydeidae
|
Spongoski et al., 2005
Mineiro et al., 2006
|
Oligonychus ilicis (McGregor)
|
Tetranychidae
|
Mineiro, 2006
|
Parapronematus acaciae
|
Iolinidae
|
Spongoski et al., 2005
|
Saproglyphus sp.
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Winterschmidtiidae
|
Mineiro al., 2006
|
Spinibdella sp.
|
Bdellidae
|
Mineiro et al., 2006
|
Tarsonemus confusus Ewing
|
Tarsonemidae
|
Spongoski et al., 2005
|
Tarsonemus sp.
|
Tarsonemidae
|
Mineiro et al., 2006
|
Triophtydeus sp.
|
Meyexellidae
|
Mineiro et al., 2006
|
Typhlodromus camelliae (Chant
& Yoshida-Shaul)
|
Phytoseiidae
|
Mineiro, 2006
|
Tyrophagus sp.
|
Acaridae
|
Mineiro, 2006
|
Zetzellia malvinae Matioli,
Ueckermann & Oliveira
|
Stigmaeidae
|
Mineiro et al.,2006
|
Zetzellia sp.
|
Stigmaeidae
|
Spongoski et al., 2005
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Legendas das figuras citadas no texto

Figura 1 - Superfície inferior de folha (superfície abaxial) de
cafeeiro, Coffea arabica, exibindo domácias nos ângulos menores
entre a nervura central e as nervuras secundárias. Foto: Paulo Rebelles Reis
Figura 2 - Fêmea adulta de Iphiseiodes zuluagai (Phytoseiidae)
após depositar um ovo dentro da domácia foliar de cafeeiro, Coffea
arabica, (esquerda), e larva de ácaro da mesma espécie dentro da domácia
(direita). Foto: Paulo Rebelles Reis
Figura 3 - Fêmea adulta de Brevipalpus phoenicis (Tenuipalpidae)
dentro da domácia (esquerda) e saindo da domácia foliar de cafeeiro, Coffea
arabica, (direita). Foto: Paulo Rebelles Reis
Paulo Rebelles Reis






