quinta-feira, 12 de maio de 2011

Solo também precisa de comida

 

Solo também precisa de comida


A realização da análise de solos para a verificação da qualidade, como o teor de nutrientes e o grau de acidez - informações imprescindíveis para o bom desenvolvimento das culturas que ali serão semeadas - não é novidade na rotina da produção agrícola. Apesar disso, a constância dessa prática está abaixo do ideal. É o que defende o professor especialista em solos, Roberto Antunes Fioretto, do Departamento de Agronomia da Universidade Estadual de Londrina (UEL).

''Ainda há quem considere a análise de solos como um documento exigido pelos bancos na liberação de financiamento agrícola'', lamenta o professor. O solo é a base do sistema biótico das plantas, sendo responsável por quase todo o fornecimento de minerais. Por isso, o de boa qualidade, segundo Fioretto, é aquele que apresenta o volume de nutrientes equilibrado. ''O monitoramento do sistema só é possível por meio da análise de solos, por isso ela deve ser realizada constantemente.''

Outro foco errado concedido à análise de solos, diz o professor da UEL, está na avaliação apenas da acidez (provocada especialmente pela elevação do teor de alumínio, elemento tóxico às plantas) e, consequentemente, na indicação para o uso de calcário. ''É comum dizer que solo que 'pede' calcário não presta. Mas estamos em um país tropical e temos que conviver com isso sempre.'' Fioretto destaca ainda que a ocorrência de chuvas, cuja média anual é de 1.300 milímetros, também ajuda a ''lavar a terra''.

Entre os ''alimentos'' utilizados pelas plantas e que são retirados do solo estão ao menos 11 tipos de minerais, classificados como macronutrientes (nitrogênio, fósforo, potássio, cálcio, magnésio e enxofre) e micronutrientes (manganês, zinco, cobre e boro). A classificação, como explica o pesquisador Gedi Jorge Sfredo, da Embrapa Soja, indica a exigência ou quantidade que as plantas absorvem desses elementos. ''Independentemente da quantidade, não há o que seja mais ou menos importante no desenvolvimento da planta, todos têm um papel e por isso não podem faltar'', alerta.

Minerais

Os dois especialistas informam que os minerais nitrogênio (N), fósforo (P) e potássio (K) são os mais absorvidos pelas plantas e por mais tempo em seu ciclo de vida, por isso são os que integram as fórmulas de fertilizantes disponibilizadas pelo mercado para a reposição de nutrientes no solo. Fioretto destaca que a formulação NPK facilita também a fiscalização de produtos por parte do Ministério da Agricultura.

Mas o professor da UEL é bastante crítico em relação a esta fórmula que, para ele, é benéfica muito mais comercialmente do que para a saúde das plantas. ''Como o próprio organismo humano, todos os nutrientes precisam ser repostos''. A falta de outros tipos de minerais, de acordo com Fioretto, resulta nas frutas, verduras e legumes sem sabor disponíveis no mercado. Outra contribuição negativa é a de que a deficiência nutricional das plantas afeta diretamente a alimentação das pessoas, cujo valor de minerais e vitaminas também fica comprometido.

Além da utilização mais frequente da análise de solos, outro aliado na avaliação nutricional das plantas é a análise foliar, que segundo Fioretto permite fechar o diagnóstico da planta. O investimento na análise de solos fica em média R$ 30 e o da foliar R$ 50 por amostra. Segundo ele, a coleta de material para a análise de solos ocorre frequentemente com amostras de 0 a 20 centímetros de profundidade. ''O ambiente de produção é considerado até 40 centímetros de profundidade. Com a agricultura de precisão torna-se possível a extratificação das amostras'', explica o professor. Nesse caso as porções de terra analisadas são de 0 a 10 cm, 10 a 20 cm e de 20 a 40 cm. Já na foliar são coletadas 30 a 40 plantas por amostra.

Célia Guerra

Perdas pós-colheita devem ser consideradas


Perdas pós-colheita devem ser consideradas
O período de pós-colheita, ou seja, aquele que se estende da colheita até o consumo do produto, é caracterizado por grandes perdas da qualidade mercadológica causadas por deteriorações. Os produtos agrícolas são organismos que continuam vivos depois de sua colheita, mantendo ativos todos os seus processos biológicos vitais. Devido a isso e ao alto teor de água em sua composição química, eles são altamente perecíveis. Para aumentar o tempo de conservação e reduzir as perdas pós-colheita, é importante que se conheçam e se utilizem práticas adequadas de manuseio durante as fases de colheita, armazenamento, comercialização e consumo. No Brasil, estima-se que, entre a colheita e a chegada à mesa do consumidor, ocorram perdas de até 40% das frutas e hortaliças produzidas. Essas perdas podem ser de natureza quantitativa ou qualitativa, ocasionando assim redução no seu valor comercial.

As perdas durante a pós-colheita são fatores limitantes na produção de alimentos hortícolas. Apesar de o Brasil se caracterizar como um país altamente produtor, é também um dos países onde mais se perdem alimentos durante essa etapa. A falta de conhecimento dos processos fisiológicos dos frutos, bem como a falta de infraestrutura adequada e de uma logística de distribuição são os principais fatores responsáveis pelo elevado nível de perdas pós-colheita observadas no país.

A qualidade de frutos, na fase pós-colheita, vai depender da tecnologia utilizada na cadeia de comercialização. A seleção dessa tecnologia está relacionada ao destino do produto, seja para o consumo in natura seja para a indústria. A aplicação de métodos para reduzir os danos pós-colheita são medidas usuais em países desenvolvidos, enquanto, nos países em desenvolvimento, essas aplicações não são bem sucedidas, destinando, para o mercado interno, produtos de qualidade inferior.

A qualidade do produto é feita no campo. Os cuidados pós-colheita só conseguem manter a qualidade obtida na produção até o consumo. O produtor deve definir o melhor ponto de colheita que garanta a satisfação do consumidor pelo produto e uma conservação pós-colheita adequada. Ainda não se tem um método definitivo para a determinação do momento exato para colheita de todos os frutos. Na determinação do ponto de colheita, devem ser levados em consideração fatores como destino do fruto, meio de transporte, intervalo entre a colheita e o consumo e as características intrínsecas do produto, já que o potencial de vida útil e armazenamento dos frutos dependem do seu estádio de maturação no momento da colheita.

O cuidado com o manuseio da fruta durante a colheita é essencial para que sua boa qualidade seja mantida. Ter colhedores e operadores adequadamente treinados para evitar todo e qualquer tipo de dano aos frutos durante o manuseio é imprescindível, uma vez que dela depende, em grande parte, o sucesso da sua comercialização in natura. Deve-se também usar carretas tracionadas por trator ou animal para retirar os contentores com frutos do pomar. Se a casa de embalagem for localizada perto do pomar, esses contentores podem ser transportados diretamente nesses veículos, caso contrário, deve-se utilizar caminhão. Nesse caso, o manuseio dos contentores deve ser mais cuidadoso, a fim de reduzir os danos físicos ao produto.

O transporte do fruto do campo para a casa de embalagem exige bastante cuidado, pois, geralmente, é nesse momento que ocorre a maior incidência de deteriorações físicas no produto, principalmente se a casa de embalagem estiver localizada muito distante do pomar e as vias de acesso não oferecerem condições adequadas para o tráfego. Esse transporte deve ser feito, se possível, por veículos com sistema de refrigeração, caso contrário algumas medidas para amenizar os efeitos da elevação da temperatura deverão ser tomadas, tais como: cobrir o veículo com lona de cor clara, tomando o cuidado de deixar um espaço livre entre a lona e os contentores e na disposição dos contentores para permitir uma circulação de ar; reduzir o máximo possível o tempo entre a colheita e o transporte; se não for possível paletizar a carga no campo para evitar o manuseio excessivo dos contentores e facilitar o transporte, devem-se empilhar os contentores no máximo em três camadas para evitar danos físicos aos frutos. As horas mais quentes do dia devem ser evitadas, pois o aquecimento dos frutos reduz o tempo de sua vida útil pós-colheita, acelerando assim os processos que levam à sua deterioração.

As condições ideais de armazenamento variam de produto para produto e correspondem às condições nas quais esses produtos podem ser armazenados pelo maior espaço de tempo, sem perda de qualidade. O período de armazenamento depende principalmente da atividade respiratória do produto, suscetibilidade à perda de umidade e resistência aos microrganismos causadores de podridões.

Maria Madalena Rinaldi
Pesquisadora da Embrapa Cerrados
maria.rinaldi@cpac.embrapa.br