Fundação Procafé
Alameda do Café, 1000 – Varginha, MG – CEP: 37026-400
35 – 3214 1411
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MUITA FERRUGEM NO CAFÉ DA COLÔMBIA
J.B. Matiello- Eng Agr MAPA-Procafé
Os Técnicos e a Gerencia da Federação de Cafeicultores da Colômbia estão muito preocupados com o forte ataque da ferrugem, que vem sendo observado nos cafezais do pais , neste último ano. Por isso, fui convidado para ir lá diagnosticar as causas do problema e sugerir medidas de controle.J.B. Matiello- Eng Agr MAPA-Procafé
A viagem ocorreu no período de 29-nov a 3-dez de 2010. Acompanhado pelos Agrônomos da Federação visitamos a região de Pereira, Manizales e Chinchiná, verificando a condição dos cafezais e também alguns ensaios de controle químico e mantivemos contato no comitê cafeeiro de Risaralda. No final tivemos uma reunião na Gerencia da Federação em Bogotá e fizemos uma palestra no “Congresso cafetero,” para 150 representantes dos comitês regionais, na sede da Federacción.
A ferrugem e a introdução de variedades resistentes
A ferrugem do cafeeiro foi constatada na Colômbia em setembro de 1983 e todo o esforço de controle foi baseado na substituição de variedades, das tradicionais, Typica e Caturra, para variedades resistentes à doença. No inicio foi introduzida a variedade Colômbia, uma mistura de linhas de Catimores de frutos amarelos e, mais recentemente,está sendo indicado o plantio da variedade Castillo, uma seleção também de Catimores, agora de frutos vermelhos, composta por 30 linhas diferentes, trocadas conforme se constate a sua perda de resistência..Toda a semente é produzida e fornecida pelo CENICAFÈ, o Centro de Pesquisas da Federacción.
A renovação com variedades resistentes, embora muito significativa, atingiu, apenas, cerca de 300 mil hectares, restando, ainda, 600 mil ha das variedades tradicionais, quase todos de Caturra. Esse total, de 900 mil ha de lavouras cafeeiras no pais, está distribuído em cerca de 600 mil produtores, portanto, muito pequenos, com média de 1,5 ha por propriedade.
Fatores favoráveis à doença
Como se conhece, a cafeicultura da Colômbia é desenvolvida em zonas montanhosas, em altitudes entre 1000 a 2000 m, onde os solos são, no geral, bastante férteis, com altos teores de matéria orgânica, chovendo muito, de 1500 a 2500 mm por ano, com boa distribuição, com a maioria da área cafeeira apresentando temperatura média anual na faixa de 18-22º C, com pouca variação durante os meses do ano. Os plantios de café são feitos no sistema adensado, sendo o normal 1x 1m a 1,4 x 1 m, com populações médias em torno de 6000 plantas por há, podendo chegar até a 10 mil plantas por ha. Portanto, as condições de umidade e temperatura, mais o adensamento de plantio, são muito favoráveis à evolução da ferrugem nas lavouras da Colômbia, mais até do que no Brasil, onde ocorre um período frio e seco no inverno.
Nos dois últimos anos ocorreram outros fatores que favoreceram a doença. Primeiro a ocorrência de mais chuvas, cerca de 1000 mm a mais no ano. Isto até diminuiu a floração e resultou em pequena safra em 2009, com apenas cerca de 8 milhões de sacas. Com a pequena carga as plantas desfolharam menos e acumularam inoculo para a safra de 2010, esta com maior produtividade, portanto coincidindo inoculo residual elevado, com carga alta, fatores muito importantes na evolução da doença. Segundo, a elevação do custo dos fertilizantes, que levaram à redução do seu uso, deixando, assim, as plantas menos nutridas e mais sujeitas à doença.
Para completar o elenco de fatores favoráveis temos a susceptibilidade das plantas. A variedade Caturra, cultivada lá em grande escala, embora oriunda daqui, não
encontrou, nas nossas condições, de maior stress climático, a boa adaptação que lá ocorre, sendo, por isso, bem aceita pelos produtorescolombianos. Sabe-se, no entanto, pelos pequenos lotes aqui cultivados, à semelhança da variedade Bourbon Amarelo, que a variedade é muito susceptível à ferrugem, pelo seu menor vigor, pela sua maturação concentrada e precoce.
Situação observada em campo
Nas visitas de campo, de fato, foi possível verificar altas infecções pela ferrugem em lavouras de Caturra, mesmo em altitudes um pouco mais altas, na região cafeeira visitada na Colômbia. As plantas apresentavam elevado numero de pústulas por folha, com a doença atingindo até o último par de folhas, com muita desfolha. Em função do ataque, verificou-se grande proporção de ramos secos nos cafeeiros e conseqüente má granação e chochamento de frutos, devido à desfolha precoce. Essa característica de ataque mais cedo, chega a prejudicar a produtividade das lavouras no mesmo ciclo, com perda de rendimento na relação frutos-grãos. Por sua vez, a produtividade prevista para o próximo ano aponta para perda quase total.
Por outro lado, as plantações com as variedades resistentes, Colômbia e Castillo, se mostram com baixos níveis de infecção, existindo, também, plantas imunes á doença, dentro dos lotes, que, assim, não apresentam desfolhas significativas, portanto, sem perdas produtivas, evidenciando o acerto no uso desses materiais genéticos.
Outra alternativa analisada, o uso do controle químico nas plantações de caturra, mostrou acertos e erros na Colômbia. A prioridade que vem sendo dada, no momento, é o controle através de pulverizações, com o emprego de fungicidas triazóis, em especial o Cyproconazole. Como o período favorável à doença é muito longo, seriam necessárias várias aplicações no ano. Com a forte declividade das áreas de café, fica muito difícil a operacionalidade das aplicações foliares, que exigem o carregamento de muita água. O trabalho também é dificultado pelo adensamento das plantas, que atrapalha o transito dos trabalhadores e expõe os mesmos à calda aplicada. A definição da época de aplicação fica complicada por existir regiões com diferentes épocas de floração e colheita. A principal área cafeeira possui a colheita concentrada(70%) no segundo semestre, com colheita em outubro- novembro. Outras tem a colheita concentrada no primeiro semestre, e outras, ainda, tem colheita equilibrada, metade no primeiro e metade no segundo semestre. O que vimos, como forma errada, é o inicio e término das aplicações foliares muito cedo. Também, ocorre o uso de doses muito baixas, por exemplo, 25 g de Cyproconazole(250 ml de Alto 100) por há, quando se conhece a maior área foliar das plantações (6000-10000 pl por ha). Aqui no Brasil, no inicio, usava-se 50 g de Cyproconazole por ha, agora essa dose passou a 80 g , isto mesmo para um menor numero de plantas por ha.
Em lavoura de um pequeno produtor, onde o controle começou e terminou mais tarde, em agosto, 2 meses antes da colheita, com o emprego de 5 foliares de triazol, o controle foi eficiente, em plantação mais jovem de caturra, com menor área foliar e menor produção, enquanto em área de plantas mais velhas e com carga mais alta, houve controle, porem com menor eficiência. Em propriedade vizinha, onde o mesmo produtor passou a administrar recentemente, portanto, onde o controle químico não foi feito a lavoura de caturra ficou totalmente desfolhada, só sobrando enfolhadas,, no meio, algumas plantas das variedades resistentes oriundas de replantios.
Também observamos as parcelas de um ensaio, agora encerrado, onde, nos 2 últimos anos em lavoura, da variedade caturra,f oi testada a formulação de Cyproconazole via solo. Ali onde houve bom efeito das maiores doses, verificando-se
ótimo enfolhamento das parcelas tratadas, contra elevada desfolha nas plantas da parcela testemunha.
Problemas agronômicos paralelos
Outras verificações paralelas, ligadas ao manejo das plantações foram feitas nas visitas. Elas dizem respeito a deficiências agronômicas nas práticas culturais, que levam as plantas a um maior stress nutricional, que favorece a sua susceptibilidade à ferrugem.
Observou-se muitas áreas deficientes em magnésio e fósforo, alem da deficiência de cobre, esta mais observada nas variedades resistentes. Solos com muita matéria orgânica, como os da Colômbia, são sabidamente carentes em Cobre, já que o elemento é ali imobilizado.. Aplicações foliares de fungicidas cúpricos, assim, deverão melhorar a produtividade também nas lavouras de variedades resistentes á ferrugem, pelo seu efeito tônico nutricional.
Algumas análises de solo obtidas nas propriedades, durante as visitas, evidenciaram essas carências, embora o laboratórios não apresentou resultados da CTC do solo, e, consequentemente, não se conhecia a participação percentual das bases Ca, Mg e K, porem parece que ocorre um desequilíbrio entre elas. Como se sabe é importante que se volte a esse equilíbrio, em razão semelhante a 9 de Ca para 3 de Mg, para 1 de K. Na Colombia muitos laboratórios incluem a CTC e o equilíbrio que acham ideal é de 6-2-1.Outra coisa é que não se tem, nos boletins de análise química de solo, os micro-nutrientes. Tampouco se utiliza a análise foliar como elemento auxiliar de entendimento do que se passa na absorção-aproveitamento nutricional pelas plantas. Essas análises se tornam uito custosas para o pequeno produtor. Alem disso, a pesquisa na Colômbia não considera os micro-nutrientes muito importantes para a a condição dos cafezais.
Deficiências localizadas de manganês e ferro foram observadas, em pequenas áreas, devidas a excesso de umidade ligadas á física inadequada do solo, com pouca drenagem.
Outras duas observações efetuadas dão conta, a primeira, da presença, em numero significativo, de plantas aparentemente com sistema radicular pouco desenvolvido, sempre amareladas, que sofrem muito com a carga. Isto pode estar ligado a doença no tronco ou em raízes, por exemplo a ocorrência de chaga macana, ou a problemas de baixo fósforo no plantio ou a problemas no viveiro ou, finalmente, ligado a física de solo, por má drenagem, especialmente nestes últimos anos, muito chuvosos. A segunda foi a observação de sintomas de virose- a leprose, em folhas e frutos em plantação de variedade resistente à ferrugem. Observou-se os sintomas típicos nas folhas, a presença de manchas amareladas acompanhando as nervuras, porem a constatação da doença necessita de melhor confirmação, via cortes e exame em microscopia eletrônica.
Finalmente, no aspecto de práticas agronômicas verificou-se, em alguns casos, o excesso de mato, em especial nas plantações jovens e em brotas de recepa. Esta falta de controle do mato está ligada à coincidência da época de colheita, quando os trabalhadores estão pouco disponíveis para os tratos, pois ganham mais no serviço de colheita. Ali, o abafamento-sombreamento pelo mato alto favorece o molhamento foliar nos cafeeiros, facilitando a inoculação da ferrugem sem falar na concorrência pelos nutrientes, igualmente danosa, por enfraquecer as plantas de café.
Por outro lado, o que vimos de muito positivo é a prática de recepa das lavouras em ciclos curtos, podando baixo mais ou menos a cada 5 anos. Isto favorece, abrindo a lavoura, renovando a área de ramos produtivos e facilitando todos os tratos e a colheita
manual. Chama a atenção a boa recuperação da brotação, devida às boas condições de clima e solo, apesar de se tratar de variedades pouco vigorosas, com o caturra e os catimores.
Estrutura de apoio muito adequada
A cafeicultura da Colômbia possui uma estrutura de apoio técnico e econômico muito adequada. A Federacción de Cafeteros coordena e executa, através do CENICAFÉ e do seu serviço de extensão rural, com grande numero de pesquisadores e técnicos extensionistas (70 pesquisadores diretos e mais 150 colaboradores na pesquisa e 1200 técnicos na assistência), todo o trabalho de apoio aos produtores. Alem disso facilita o cafeicultor com fornecimento de insumos a preços mais acessíveis, e mais com concessão de créditos em boas condições. Atua ainda na comercialização do café, com regulação e marketing, favorecendo melhores preços em seus cafés. A marca “Café de Colômbia” e “Juan Valdez”, com sua mula e seu vasto bigode, percorrem o mundo.
Observa-se, no entanto, que em relação à ferrugem ocorre, mesmo assim, um descuido do produtor, que, como aqui, no inicio, não entende os prejuízos da traiçoeira doença. Quando ela parece que some ai é que vem feio. O cafeicultor deve, assim, ser melhor conscientizado pelos extensionistas, através de campos de demonstrações, onde ele poderá comparar os prejuízos de forma visual, com melhor entendimento do problema..Em especial, na área de controle químico, até certo ponto deixada mais de lado pela própria orientação da pesquisa, parece que existe um vazio nas recomendações, entre os trabalhos de pesquisa realizados e indicação na prática. Ai, então, apesar do bom trabalho extensionista da Federacción, as empresas produtoras de agroquímicos vem ocupando espaços, junto a alguns produtores, colocando as suas próprias recomendações.
Conclusões e recomendações
Com base nas observações efetuadas e nas informações obtidas nos contatos junto aos técnicos da Colômbia, foi possível verificar que o problema da ferrugem do cafeeiro no pais é sério e deve se tornar permanente, pelo volume de inoculo acumulado e pela presença dos fatores favoráveis á doença, conforme já discutidos. Poderá, sim, haver anos de maior ou menor ataque, na dependência desses fatores, sendo o mais importante a carga pendente na plantação.
Portanto, o controle deve ser adotado extensivamente, com medidas que considerem a prevenção da doença, visando a proteção das safras. Ao contrário, como já se observa, a ferrugem vai ser um elemento de redução das safras cafeeiras no pais. De modo nenhum o produtor deve querer eliminar totalmente a doença de suas lavouras, pois isto se torna impossível.
A renovação das lavouras susceptíveis , com a substituição da variedade caturra e outras pelas variedades resistentes é uma medida adequada, a qual deve ser acelerada. Nesse aspecto, nos pequenos produtores, os quais não dispõem de outras fontes de renda o plantio poderá ser feito de forma intercalar, uma espécie de dobra da lavoura, colocando uma outra linha, de variedade resistente na rua do cafezal susceptível, o qual deverá ser eliminado oportunamente. Essa possibilidade deve considerar o espaçamento adequado e outros aspectos agronômicos a serem previamente analisados, pelo Técnico extensionista, junto a cada propriedade.
Nas áreas de lavouras susceptíveis, onde, por condição de prazo, ou outro problema qualquer, não for viável substituir a lavoura susceptível, ela deverá ser protegida através do contole químico, bem feito, para evitar perdas produtivas. Nesse caso, considerando as dificuldades operacionais do controle via foliar, indica-se a
prioridade para o controle via solo, através de produtos e doses apropriadas, visando um controle mais eficiente e com maior efeito residual. Uma aplicação anual deve ser suficiente, normalmente usada bem preventivamente, coincidindo no período de maior floração, cerca de 6-7 meses antes da colheita principal. Os ativos eficientes na absorção fliar, portanto, indicados via solo, conforme os testes no Brasil, são o Triadimenol ( cerca de 1 kg de i.a. por ha), o Flutriafol(cerca de 700 g de i.a. por ha) e Cyproconazole( cerca de 400 g de i.a. por ha).
A substituição e o controle químico deverá reduzir o próprio risco de quebra de resistência das variedades atualmente resistentes (Castillo e Colômbia), muito embora, deve-se continuar melhorando sua tolerância, pela eliminação de linhas que vem sendo um pouco atacadas, alem da necessidade de introduzir, a médio prazo, novas fontes genéticas.
O aspecto de adequação nas práticas agronômicas, melhorando a nutrição, o controle do mato, o controle de outras doenças e todo o manejo da plantação, deve ser considerado, para eliminar fraquezas nas plantas e gargalos paralelos na obtenção de maiores produtividades, com isso facilitando e melhor viabilizando, técnica e economicamente, o controle da ferrugem.
Por último, considerando o maior preço observado no suprimento de produtos fungicidas no mercado colombiano, recomenda-se gestões junto ás empresas e uma ação no sentido de colocar esses preços conforme os padrões internacionais, reduzindo o custo do controle químico da ferrugem.
Aspecto geral da cafeicultura colombiana, em região montanhosa, perto de Pereira.

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